Paulo em Antioquia da Pisídia

Texto bíblico - Atos 13.13-52

"...porque assim nos ordenou o Senhor: Eu te pus para luz do gentios, afim de que sejas Para salvação até os confins da Terra"

Introdução

A igreja de Antioquia da Síria, para onde Paulo foi levado pelas mãos de Barnabé e onde trabalharam durante um ano inteiro (At 11.25,26), tornou-se o grande centro missionário do primeiro século. Dali, partiram os pioneiros Paulo, Barnabé e João Marcos. Antioquia estava a 450 Km de Jerusalém, às margens do Rio Orontes, conhecida como " a rainha do Oriente", pelos seus belos contornos e importância comercial, rota das caravanas que por ali circulavam, vindas dos "quatro cantos da terra". Não foi doa acaso que Barnabé, homem do comércio e crente fervoroso (At 11.24), numa da suas viagens a Antioquia, viu a graça de Deus operando entre seus habitantes e partiu para Tarso da Cicília em busca de Paulo, levando-o para lá. O Espírito Santo mostrou-lhe a direção na qual Deus estava trabalhando e quem deveria assumir a arrojada tarefa de levar as boas-novas ao mundo de então.
E num dia de culto e adoração, após um ano de ensino, "servindo eles ao Senhor" (v.2 ), foram separados para a primeira viagem missionária.
Agora, na sinagoga de Antioquia da Pisídia, Paulo prega o primeiro sermão aos seus irmãos judeus.

I - Jesus, o Salvador de Israel (v.23)

Paulo contextualiza a mensagem da salvação na história da nação hebraica, fazendo um relato desde a saída do Egito, passando pelo êxodo, sob a liderança de Moisés, e a posse da terra de Canaã, numa manifestação inequívoca do poder de Deus: "com braço forte os tirou dela" (v.17). Comenta sobre o período dos juízes até a figura ímpar de Samuel, quando o povo se manifesta querendo um rei como as outras nações. Fala da deposição do primeiro rei e da ascensão de Davi ao trono de Israel, "um homem segundo o coração de Deus" (v.22).
Prosseguindo, faz uma perfeita relação entre a descendência de Davi e a de Jesus, o Salvador de Israel. Comenta a missão de João Batista e faz referência ao testemunho deste sobre a pessoa do Messias. Ao mencionar a figura do patriarca Abraão, Paulo está querendo mostrar o propósito de Deus de revelar as "boas-novas" do evangelho da graça, primeiramente, aos de sua etnia. O fato de realçar a rejeição das autoridades de Jerusalém à pessoa do Salvador Jesus e a conseqüente participação delas na morte do justo, parece que Paulo está sendo habilidoso para conquistar esses ouvintes, que não haviam participado daqueles acontecimentos (v.27).

II - A ressurreição como cumprimento das Escrituras (v. 30-35)

Quanto à promessa que Deus fizera aos pais (aos antepassados), Paulo está mostrando que já se cumpriu nessa geração, a dos filhos, citando inclusive os Salmos 2.7 e 16.10, e Isaías 55.3. A ressurreição de Jesus Cristo é o fato histórico central de tudo que se possa pensar, quer seja no passado, quer no presente e no futuro. Ao lembrar a morte do rei Davi e sua sepultura, Paulo quer salientar que as referências a ele, no Antigo Testamento, apontam para o Messias que foi morto, mas vive. Aquele passou pelo processo da corrupção da carne; este, Jesus Cristo, não experimentou a decomposição de seu corpo, mas ressurgiu dentre os mortos (v.36,37). Jesus é da semente de Davi, inclusive no sentido messiânico - é o argumento de Paulo. Pedro, no sermão de Pentecostes, faz também uso das palavras de Davi, contidas no Salmo 16.8-11, para que o povo de Israel aceitasse o testemunho daquele que fora o rei, poeta e profeta. Paulo quer que seus patrícios entendam que "as firmes beneficências de Davi" foram confirmadas em Jesus Cristo, por meio da ressurreição.
A mensagem quer deixar bem claro que aquilo que não conseguiram alcançar pela lei de Moisés está acessível agora, mediante o sacrifício do Filho de Deus, mesmo em face de um povo de "dura cerviz". A advertência do perigo da rejeição (v.40) é feita com base nos profetas Isaías (29.14) e Habacuque (1.5), por meio dos quais Deus anunciara a realização de uma operação tão maravilhosa, que muitos, ao ouvirem, teriam dificuldade de aceita-la.
Aquele auditório estava tendo o privilégio de ouvir, pela primeira vez, que o tempo das maravilhas prometidas no Antigo Testamento finalmente chegara à descendência de Abraão e de Davi, por meio do Messias, Jesus Cristo, o justificador de todos os pecados.

III - A justificação mediante a fé

Decretada a inoperância da lei, só resta uma esperança - a fé. O profeta Isaías (53.11) já apontara ao povo a obra justificadora que o Messias iria realizar, primeiramente, entre o seu povo e que seria extensiva a todos os povos, em todos os tempos e lugares. Ali, na sinagoga, estavam presentes muitos gentios (prosélitos) que, juntamente com os judeus, receberam de bom grado a palavra da salvação.
Paulo e Barnabé apelaram-lhes que permanecessem na graça de Deus. A doutrina da salvação, no pensamento Paulino, está firmada nesses dois pressupostos: a graça e a fé (Ef 2.8). Paulo sabia que estava falando a judeus legalistas, que impunham aos gentios prosélitos uma carga insuportável de ritos e formalidades de sua religião.
Ao realçar esses episódios, queremos mostrar que os princípios aplicados em Antioquia, sob a direção do Espírito Santo (At 13.2), são os mesmos válidos para os dias atuais e que devem ser observados em nossas igrejas, na ação de ganhar almas para o reino eterno. Os pressupostos da evangelização e da obra missionária precisam ser resgatados pelas nossas igrejas, a fim de obterem resultados positivos.
Há de se notar que, no sábado seguinte, a cidade toda acorreu ao local para ouvir a palavra de deus (v.44). Os líderes religiosos se encheram de inveja, e aí iniciou-se uma controvérsia, tornando-se impossível o prosseguimento da mensagem, o que levou Paulo a declarar: "...visto que rejeitais, e não vos julgais dignos de vida eterna..." (v.46), nós vamos aos gentios. As pessoas que se prendem a jugos que não podem satisfazer os anseios espirituais da alma que neles permanecem por tradição religiosa vão sempre rejeitar a mensagem da graça divina. O plano de Deus para Israel, desde Abraão, foi de construir "uma grande nação" (Ex 32.10); no entanto, o povo que ele cuidou como a "menina dos olhos" colocou-se deliberadamente na contramão da vontade do seu Criador e Senhor, rejeitando o caminho da fé e persistindo nos méritos de uma vida religiosa apegada ao formalismo.
A "vida eterna" nunca antes estivera tão perto daqueles ouvintes. Paulo chega a dizer que eles a si mesmos julgaram-se indignos do favor divino para a salvação.

IV - A evangelização dos gentios (v. 47-48)

Em face da terrível perseguição que passaram a sofrer na cidade, prosseguiram anunciando a palavra da salvação na região da Pisídia, co resultados animadores pelas conversões dos "destinados para a vida eterna" (v. 48). Não devemos admitir aqui nenhuma alusão à tão propalada "doutrina da predestinação" mas, sim, a afirmação de acordo como a graça divina opera na vida daqueles que ouvem de bom grado a Palavra de Deus e não resistem à ação do Espírito Santo. O projeto de Deus para a salvação universal de todos os povos, pela mediação de Israel, não se frustrou com a rejeição deste povo de "dura cerviz", como claramente se expressou o profeta Isaías (9.2, 42.6). A maneira como os gentios reagiram, ao ouvirem e aceitarem a pregação de Paulo, mostra como o evangelho do reino opera imediatamente um novo estilo de vida - de alegria e glorificação (v. 48).
Os discípulos, forçados a saírem da cidade, estão possuídos de uma indizível alegria e cheios do Espírito Santo, cumprindo-se a promessa: "Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará com cânticos de alegria, trazendo consigo os seus molhos" (Sl 126.6).
O fato da transferência da obra missionária para as mãos dos gentios não apenas se enxertou na oliveira verdadeira, mas outorgou-lhes o privilégio de serem os portadores da graça bendita da salvação (Rm 11.17-24). Aliás, o apóstolo aos gentios, na Carta aos Romanos, no texto mencionado, a partir do versículo 25, aponta o ministério gentílico como instrumento para trazer de volta Israel ao aprisco do Bom Pastor.
Ao realçar esses episódios, queremos mostrar que os princípios aplicados em Antioquia, sob a direção do Espírito Santo (At 13.2), são os mesmos válidos para os dias atuais e que devem ser observados em nossas igrejas, na ação de ganhar almas para o reino eterno. Os pressupostos da evangelização e da obra missionária precisam ser resgatados pelas nossas igrejas, a fim de obterem resultados positivos.
Muitas das nossas ações não produzem os resultados esperados, exatamente porque ignoramos a base de sustentação e alimentação do processo, na seleção e preparo do terreno para a semeadura, na escolha dos métodos e na indicação dos que "levam a semente". A prática de levar a preciosa semente deve estar embasada em pressupostos bíblicos, para que surtam os efeitos almejados.

Conclusão

O sermão de Antioquia da Pisídia, além de ter sido um instrumento para avivar a memória dos freqüentadores da sinagoga, se constitui um precioso repositório de algumas das mais gratas verdades do plano salvífico, à disposição das igrejas de Cristo em todos os tempos e lugares.

As doutrinas expostas ali constituem-se um roteiro firme para que continuemos como igreja, falando da ressurreição, da remissão dos pecados, da justificação sem as obras da lei, da salvação universal, da alegria dos salvos, da glorificação da Palavra do Senhor, da vida eterna e da morte.

A igreja, como depositária fiel da multiforme graça de Deus (IPÊ 4.10), tem o compromisso de continuar anunciando esta maravilhosa obra da justificação pela fé, assombra o mundo e que só Jesus tem poder para fazer.

Resta-nos, na condição humana da qual estamos vestidos, nos humilharmos ante a face augusta do Senhor e buscarmos, em oração, as forças espirituais para sermos bons mordomos dessa tão nobre tarefa, a nós confiada pela graça inefável do "autor e consumador da nossa fé" (Hb 12.2).

Pr. Carlos Valentim Pinheiro