Eles foram muito além das fronteira
Os Voluntários Sem Fronteiras dos Projetos Radical Luso-Africano (turma 1) e África (turma 2) retornaram ao Brasil em dezembro, após 2 e 4 anos, respectivamente, nos campos missionários no continente africano. Reunidos durante uma semana no Rio de Janeiro pela coordenação do Projeto para um retiro de descanso e avaliação, os dois grupos de Radicais compartilharam as experiências vividas na África e contaram como superaram as adaptações, desbravaram novos campos, abriram oportunidades evangelísticas através de projetos, testemunharam de Cristo a povos não-alcançados e outros desafios.
É o caso dos Voluntários Sem Fronteiras que estavam no Níger (Radicais África 2). Ao substituírem os Radicais da turma 1, as comparações feitas por algumas pessoas das aldeias onde eles trabalhavam foram inevitáveis. “Realmente foi difícil a transição, pois as próprias pessoas diziam que estavam acostumadas com o trabalho dos nossos irmãos da primeira turma, chegando a comentar que eles eram melhores”, conta o Radical Hugo Bertolot da Silva. Ele diz que no início ficava triste, e que a pressão para o desânimo era diária. Por vezes foi para o seu quarto e chorou diante Deus. “Porém, com o passar do tempo, e graças a força que encontramos nEle, nossa equipe conseguiu não só superar a desconfiança como também ganhar a credibilidade da população, o que foi fundamental para desenvolvermos nosso trabalho e seguir com os que foram implantados pelos nossos irmãos da turma 1”, avalia Hugo.
Um bom exemplo disso aconteceu antes da equipe retornar ao Brasil. O próprio Hugo esteve discipulando um senhor de 67 anos que aceitara a Jesus como Senhor e Salvador. Mas a ‘tradição’ o impedia de anunciar sua conversão, pois sendo um dos anciãos da aldeia e muçulmano há 32 anos ele não poderia tão rapidamente assumir sua decisão por Jesus. “Apesar disso ele confessou Jesus; foi inesquecível”, exulta o Radical.
Bom testemunho para vencer desconfiança
Outros componentes da turma 2, como Talvânia de Araújo, Geoésley Negreiros e Fabiano Soares, que estavam no Mali, Guiné e Senegal, respectivamente, enfrentaram outras dificuldades: começar trabalhos missionários pioneiros e a intolerância das pessoas. “Apesar de haver liberdade religiosa no Mali, lidávamos diariamente com vários tipos de pressões dos moradores locais”, lembra Talvânia. Pelo fato de a equipe ser formada por dois homens (Miquéias Alves Fonseca e Tito Esquivel) e duas mulheres (a própria Talvânia e Aline Cristine), parecendo que eram casados, os moradores os questionavam sobre o motivo pelo qual estavam ali. “Tudo isso nos constrangia, pois sabíamos que a intenção era nos pressionar para desanimarmos com o trabalho”, diz a Radical.
Com o tempo, ao verem que o comportamento dos Voluntários Sem Fronteiras respeitava a cultura local, os moradores notaram que eram dignos de confiança e passaram a aceita-los na comunidade. “Nosso testemunho de vida abriu portas para compartilharmos de Jesus, tanto que conseguimos atrair o interesse pela Bíblia e dis-cipular um marabú (líder que ensina o Alcorão às crianças) ao ponto dele confessar que cria em Jesus como Salvador de sua vida”, finaliza Talvânia.
Geoésley Negreiros estava trabalhando na Guiné. Ele conta que as pressões foram intensas e sistemáticas, e encontraram na dificuldade inicial em compreender o dialeto sussu uma grande barreira. “Os líderes das aldeias nos questionavam sobre a razão de estarmos ali e se nossa intenção era converter a população ao cristianismo – que na visão deles é a religião dos opressores colonizadores”, explica Geoésley. “Aos poucos mostramos, e também graças ao excelente respaldo do trabalho deixado pela turma 1 na aldeia vizinha, que nossa intenção era amá-los e ajudá-los e que essa era a verdadeira mensagem de Jesus”, afirma o jovem Radical.
Segundo ele, a situação era agravada porque nenhum dos Radicais (Adriana Alves, Roberta e Pris-cila Pancoti) dominava ainda a língua sussu e a população local não falava francês. Eles aprenderam a língua no dia-a-dia. Assim, de conquista em conquista, eles conseguiram implantar no vila-rejo projetos com crianças, especialmente uma es-colinha de futebol, e criaram oportunidades para compartilhar de fé em Cristo. Mesmo não contabilizando conversões, deixaram lições e marcas positivas da vida cristã entre aquele povo.
A realidade na África portuguesa
No caso dos Radicais Luso-Africanos, as realidades encontradas em São Tomé e Príncipe e em Moçambique não foram muito diferentes daquelas vividas pelos Voluntários Sem Fronteiras que estavam no Noroeste do continente africano. Apesar de trabalharem em países de língua portuguesa, as semelhanças, em especial o avanço do islamismo, as práticas ocultistas – inclusive dentro das igrejas evangélicas – e a carência de preparo dos crentes, tornaram a adaptação e o trabalho dos Radicais Luso-Africanos tão desafiador quanto o dos Radicais África.
Para o casal Roberto e Edna Carmona, que esteve trabalhando em Dondo, Moçam-bique, a maior necessidade dos cristãos moçambicanos é o preparo adequado através do discipulado. “Somente com um treinamento específico, com bastante base bíblica, é que os crentes ali poderão deixar as práticas erradas e, verdadeiramente, converterem-se ao Senhor Jesus”, dizem os Radicais. “Vimos, em missões no interior do país, alguns líderes de trabalho que sequer haviam entendido sua própria conversão. Como não foram discipulados e não sabiam que era preciso aceitar a Jesus como Salvador, entendiam que apenas freqüentando uma igreja cristã já estariam salvos”, comentam.
Roberto Carmona ressalta que a falta de preparo teológico fica ainda mais evidente entre a população comum. “Alguns crentes ainda praticam, talvez por questões tradicionais, o sincretismo religioso e por isso é comum vê-los entrando em terreiros logo após deixarem a igreja, o que para eles parece normal. Infelizmente esta é a realidade. É preciso, em se tratando de obra missionária na África, o envio de pastores ou líderes que estejam dispostos a ensinar o povo, para que coisas desse tipo em breve não aconteçam mais”, revela
Em São Tomé e Príncipe, o Radical Edilon Moreira dos Santos e sua equipe também encontraram crentes e pessoas da comunidade, onde trabalhavam, participando das reuniões na igreja e nos centros ocultistas. “Era comum ver pessoas da nossa igreja visitando os locais onde ficam os curandeiros. Entendemos que era preciso investir na área do discipulado e nos ministérios da igreja a fim de combater aquelas práticas erradas”, diz Edilon.
Entretanto, uma outra barreira se levantava: a desconfiança do povo local. “Como o africano, de um modo geral, é muito desconfiado com os estrangeiros por causa das agressivas invasões ocorridas no passado, na visão deles éramos mais alguns ‘colonizadores’ que queriam impor algo. Inclusive nas igrejas onde trabalhamos os irmãos pensavam que iríamos mudar a cabeça deles. Alguns meses depois, graças ao nosso testemunho e trabalho nos projetos, vencemos a desconfiança e conseguimos iniciar nossos ministérios em São Tomé e Moçambique”, contam Danielle Ferreira Borges e Edna Carmona.
E a forma encontrada para derrubar as barreiras foram os projetos de auxílio e evan-gelismo, como o curso de informática montado em São Tomé pelo Radical Luso-Africano Edilon. “Nossa equipe notou que havia um computador usado e desativado em nossa casa. Conseguimos consertá-lo e pensamos em colocá-lo à disposição do povo para ensinarmos noções básicas de informática. Em pouco tempo tínhamos cerca de 20 alunos. Recebemos a doação de mais alguns computadores, inclusive do Brasil, e pudemos montar um bom curso de informática. Assim que deixamos o campo, logo no início de dezembro, a primeira turma havia recebido seu certificado de conclusão de curso. Ali pudemos compartilhar do amor e cuidado do Senhor por aquelas vidas através de algo que os beneficiasse. Alguns deles já visitam e freqüentam a igreja onde servíamos em São Tomé”, conta, entusiasmado, o Radical Edilon.
Abençoando vidas na África
Em Moçambique, a Voluntária Sem Fronteira Renata Santos de Oliveira conta como anunciou o Evangelho e ajudou a abençoar vidas através da assistência nutricional. Sua formação (nutricionista) lhe deu a base para ajudar o povo moçambicano. Renata lembra, com e-moção, do pequeno Santos, de apenas 2 anos, que sofria de forte desnutrição. Ela iniciou a minis-tração de uma multi-mistura de alimentos encontrados no próprio país e, em pouco tempo, o menino ficou forte e livre da desnutrição.
Em outro sério caso de desnutrição, uma mãe trouxe seus dois filhos gêmeos para que a Radical cuidasse deles. Ela notou que as crianças tinham fitas presas aos pulsos que indicavam pactos de feitiçaria. “Insisti, ao ponto de chorar, para que ela tirasse as fitas e dedicasse seus filhos a Jesus, sob o risco de que seus filhos morressem, pois além disso, o quadro clínico de um deles era gravíssimo”, lembra Renata. Porém, mesmo diante da negativa da mãe ao seu pedido, ela ministrou a multimistura. Pouco tempo depois ela retornou somente com uma das crianças no colo, bem mais forte. Mesmo ainda triste com a notícia da perda de uma delas, Renata notou que as fitas tinham sumido do pulso da outra criança. Ela chora ao recordar o fim dessa história. “Aquela mãe me disse que, após a morte do filho, percebeu que os ‘espíritos’ não podiam fazer nada por ela, e que por isso havia decidido entregar seu outro filho a Jesus”.
Missões Mundiais entrega certificados
Aconteceu no último dia 13 de dezembro, no auditório da Convenção Batista Brasileira, no Rio de Janeiro, o culto de gratidão e entrega de certificados aos 24 Voluntários Sem Fronteiras integrantes dos Projetos Radical Luso-Africano (turma 1) e África (turma 2) que retor-naram dos campos.
Durante aproximadamente uma hora, os Radicais se apresentaram, entoando louvores em vários dialetos africanos, e compartilharam emocionantes e inspirativas experiências sobre os trabalhos que desenvolveram nos campos. As missionárias Adriana Alves de Lima, da turma África 2, e Renata Santos de Oliveira, membro da equipe Luso-Africano 1, falaram das grandes carências que encontraram no continente africano, em especial o avanço do vírus da AIDS e a desnutrição que assola a infância.
Muitos dos participantes, entre eles vários pastores batistas de diferentes locais do Brasil, foram às lagrimas ao ver imagens dos atendimentos prestados pelos Radicais e ao ouvirem os emocionados testemunhos missionários.
Encerrando a inspirativa programação, o momento de entrega dos certificados de conclusão foi conduzido pelos pastores Sócrates Oliveira de Souza, Diretor Executivo da CBB e interino da Junta de Missões Mundiais, e Lauro Mandira, Gerente de Missões da JMM, além da missionária Analzira Nascimento, coordenadora geraal do Projeto.
Os Voluntários Sem Fronteiras se despedem temporariamente do Projeto Radical. Em breve alguns deles, que manifestaram o desejo de regressar aos campos, serão avaliados pela Comissão de Missões do Conselho Geral da Convenção Batista Brasileira.
Missões Mundiais agradece a cada Voluntário Sem Fronteira que dedicou sua vida à obra de evangelização mundial e esteve em todo o tempo disponível para ser usado por Deus para cumprir o chamado missionário e abençoar vidas no continente africano.
Fonte: Junta de Missões Mundiais
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